A moda não se resume à forma como se veste, ela também está directamente ligada à cultura e não se pode separar dela. A cultura faz a moda. Com cultura, refiro-me ao conjunto de hábitos, crenças e visões de mundo que constituem a identidade de uma pessoa ou de um determinado grupo. É através disso que surge a moda. A moda, então, é consequência dos hábitos, das crenças e da visão de mundo de uma pessoa, povo ou grupo. É por isso que cada povo possui uma forma diferente de vestir. Neste sentido, quando falamos de história da moda, referimo-nos também à cultura. Certamente, falar de cultura, na sua forma geral, não é a pretensão neste livro. Iremos abordar sobre a moda, especificamente. Analisaremos como a moda surgiu, sua evolução ao longo da história, as diferentes visões sobre o que é moda e como ela foi se expandindo até começarem a surgir as principais marcas de moda que existem hoje.
COMO TUDO COMEÇOU
Nos primeiros períodos da civilização, a moda era condicionada pelas crenças e costumes dos seres humanos que viviam naquelas épocas. Além disso, era também fortemente influenciada pela região geográfica onde estes povos habitavam. No Antigo Egipto, por exemplo, as condições eram bastante severas quando se tratava de clima, tendo sido uma região marcada por forte calor. Nestas condições, os habitantes não tinham outra alternativa a não ser usar roupas que fossem adequadas àquela temperatura ou àquela condição geográfica. No entanto, o Antigo Egipto foi um período realmente original. Embora a moda da época atendia as condições climáticas, vale reconhecer que também houve uma originalidade extremamente incrível, tanto na moda, quanto nos costumes e na cultura, como um todo.
A vestimenta daquela época transmitia muito bem a cultura e a visão de mundo daquele povo, sendo que cada peça de roupa era pensada detalhadamente e nada era usado sem uma finalidade definida. Tudo era produzido com base às condições que a terra e o clima oferecia. Aqueles que pertenciam ao mais alto nível da sociedade, como o Faraó, por exemplo, vestiam-se de forma mais sofisticada e detalhada em relação aos servos que estavam na camada mais baixa.
Conseguimos entender que a moda ou a forma de vestir de uma sociedade possui condicionamentos e influências alheias a ela e que acabam por determinar a sua forma de vestir e de criar roupa. Então, a moda não tem a ver apenas com estar bem ou se apresentar bem, mas também tem forte significado cultural, no sentido de transmitir a crença, a religião, a visão de mundo e o costume de um determinado povo. Esta caracterização também vale para as outras civilizações da Antiga Grécia e da Roma Antiga.
IDADE MÉDIA
O período da Idade Média compreende seu início a partir do século V (com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476) e termina no século XV (com a tomada de Constantinopla pelo Império Otomano, em 1453). Esta época é também conhecida como Idade das Trevas, com a justificativa de que foi um período sem grandes produções científicas, marcado, sobretudo, pelo domínio da igreja. Ora, muitas fontes e muitos autores já negam essa ideia, pois a própria história se encarrega de desmentir essa crença e de confirmar que este também foi sim um período de grandes riquezas intelectuais como em qualquer outro período. Na Filosofia, por exemplo, foram vários os pensadores que contribuíram imensamente no conhecimento e influenciaram o mundo que conhecemos hoje, pensadores como Santo Agostinho, Santo Anselmo, Roger Bacon e Tomas de Aquino, só para mencionar alguns.
Todavia, não se pode negar o facto de que grande parte da Idade Média foi marcada pelo domínio da Igreja. Foi também nesta época que foram erguidas várias construções que hoje fazem parte e são estudadas na História da Arte, como os grandes castelos, as universidades e as catedrais. O domínio da igreja exerceu uma grande influência na moda da época. A vestimenta eclesiástica era a regra, sobretudo para os líderes eclesiásticos e outras personalidades que pertenciam à alta camada daquela época.
RENASCIMENTO E ALTA COSTURA
Ainda sob a crença de que o período da Idade Média foi um período sem grandes feitos no campo científico, começou a nascer um período revolucionário que ficou conhecido como o período do Renascimento. Foi uma época em que vários pensadores, acreditando que o período anterior foi de grande adormecimento científico, começaram a desenvolver ideias e críticas, no sentido de voltarem ou fazerem renascer o conhecimento ofuscado durante o período da Idade Média. Ora, esta revolução não se deu apenas no conhecimento, mas também na cultura e, consequentemente, na moda.
A moda do Renascimento remete ao gosto da estética clássica, sobretudo da antiguidade grega e romana, caracterizada pelos seus adornos brilhantes e complexidades estilísticas da Alta Costura. Tratava-se de uma moda cujas vestimentas ganhavam a forma do corpo e eram recheadas de adornos, cores e peças de grande luxo, com destaque para o ouro, o diamante e pedras preciosas, simbolizando riqueza, poder e luxo das camadas mais altas da sociedade. Era uma moda que já se observava nos tempos clássicos e que estava agora a ser resgatada no Renascimento, mas, de uma forma mais refinada.
Esta tendência podia ser vista não apenas na indumentária, mas também nos cômodos dos palácios reais. É interessante como as indumentárias combinavam com a mobília, com o papel de parede, com as cores dos artigos da sala e com os outros adornos à volta do palácio. Pode-se então observar que o luxo era amplamente invocado em todos os estágios da vida real, reverberando em outras camadas sociais.
No entanto, a costura começou a ter toda a sua força, fama e reconhecimento por meio das características das indumentárias que começaram a surgir no final da Idade Média. Refiro-me sobretudo à indumentária dos reis, com destaque para França, Espanha, Portugal e Inglaterra. A França, por exemplo, é amplamente conhecida pela indumentária dos seus reis absolutistas, como Luís XIV e Luís VXI, junto com a rainha Maria Antonieta, na França. Na Espanha, podemos mencionar o rei Philip II e, na Inglaterra, observamos a Rainha Elisabeth I. Esta forma de produzir moda se espalhou um pouco por toda a Europa, como em Portugal e na Itália.
Os mestres de costura
Nesta época, os mestres de costura passaram a ganhar grande notoriedade. Cada vez mais, os reis das sociedades da época foram preferindo roupas mais robustas e detalhistas. Na França, por exemplo, podemos verificar esta observação por meio dos seus reis, sobretudo a partir do rei Luís XIV, pois foi ele quem, pela primeira vez, em 1675, ordenou o reconhecimento dos mestre de costura como costureiros oficiais das vestimentas do rei. Foi então que estes mestres passaram a ter maior reconhecimento no mercado. Basicamente, toda a roupa das famílias reais de boa parte da Europa passava pelas mãos dos mestres de costura, que criavam os vestidos e as peças que os membros da alta classe vestiam.
Como consequência, a moda da Alta Costura passou a ser a moda oficial da corte e os mestres de costura passaram a trabalhar directamente nos palácios com os reis e outros membros reais. Ora, nem todos estavam de acordo com a forma como os membros da família real ostentavam suas vestimentas. Foi este o caso do panfletário inglês Philip Stubbs (1555 – 1610). Stubbs era conhecido pelos ataques que fazia sobretudo à realidade inglesa da sua época, mais especialmente, pela indumentária pungente que se avistava no seu tempo. Foi então que, em 1583, publicou a obra “A Anatomia dos Abusos”, que é basicamente um ataque aos costumes, aos entretenimento e à moda da época, além de possuir uma abundância de conteúdos sobre este assunto. Todavia, a moda da época ficou marcada pela consistência e promoção por parte dos seus autores franceses, espanhóis e ingleses, sobretudo a França, tanto é assim que o título de moda da Alta Costura é dado exclusivamente à França. Todavia, a moda ganhou proporções mundiais, caracterizada pelas cores vivas, texturas refinadas, pelo luxo das suas peças, dos seus ornamentos e pela pujante ostentação que exalava. Esta moda era promovida por todos os membros da família real e as suas características cabiam a todos os membros, tanto para homens, quanto para as mulheres, tendo como figuras máximas o rei e a rainha.
Século XIX
No século XIX, a indumentária passou a ser um pouco menos detalhada como acontecia no cerne do período dos reis absolutistas. Ainda se podia ver o clássico estampado na vestimenta, mas já não tanto caprichado como antes. Aos poucos, foram desaparecendo o ouro, os diamantes e as peças valiosos das vestimentas. No entanto, ainda era uma moda refinada e de grande elegância. O século XIX deu continuidade a este estilo menos detalhado. Basicamente, a moda do século XIX deu início ao traje formal como conhecemos hoje, com o reconhecimento do smoking como traje oficial da corte, sem grandes detalhes, mais organizado e com cores mais escuras, sobretudo o preto.
Este período deu origem ao que hoje chamamos de Belle Époque (1890 – 1914). A Belle Époque ficou caracterizada como um período da decadência moral, cujas tendências permitiam uma maior liberdade sexual no que se referia ao vestir. É neste período que as mulheres possuíam mais liberdade de mostrarem o corpo e transmitir a sexualidade que as cabia. Um pouco antes deste período, já começavam a surgir as primeiras marcas de moda que conhecemos hoje, como a Hermès (1837), Louis Vuitton (1854) e a revista Vogue (1892). Aos poucos, estas marcas foram promovendo as tendências da época e criando outras tendências a partir das que já existiam. Nascia uma moda moderna e muito próxima da moda que circula até hoje nos maiores desfiles e palcos de moda.
Século XX
O século XX foi o século das grandes mudanças sociais. Foi o período das guerras, das revoluções, das independências e dos conflitos civis. Foram estes episódios que construíram o mundo que conhecemos hoje, marcado por divergências, segregações, conflitos civis e guerras. Isto teve grande impacto na forma como as gerações foram construindo as suas ideias, tanto do ponto de vista social, quanto cultural. O século XX foi também o século das liberdades, como liberdade de gênero, de expressão, de criação e de movimentação. Foi também nesta época que surgiram avanços tecnológicos muito significativos, sobretudo no campo da comunicação, dando forma ao que ficou conhecido como Globalização. Ora, estes acontecimentos permitiram uma maior facilidade de locomoção, interacção intercultural e uma maior liberdade de criação por parte das sociedades. Desta forma, a moda foi adquirindo novos elementos, oriundos do contacto entre culturas e das diferentes percepções de mundo que as novas gerações foram construindo através das infinitas possibilidades que as novas tecnologias foram proporcionando. Trata-se de uma moda mais comercial, funcional, extremamente diversificada e quase indefinida, devido mesmo à sua variabilidade nos diferentes lugares. É uma moda que ilustra, na prática, a decadência do excesso, veiculada pelas marcas de moda que foram aparecendo.
Considerações finais
Foi a partir do século XX que começou a nascer aquilo que hoje chamamos de moda, ou moda moderna. É esta a moda que é veiculada até aos dias de hoje, caracterizada pela simplicidade, diversidade, elegância e falta de excessos, diferente da moda que se avistava nos períodos passados. É um período marcado por tendências de moda frequentes. Neste século, também surgiram grande parte das marcas de moda que hoje são muito conhecidas.
Autor: David Lutango, publicitário.


No responses yet